terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ouvindo Chet Baker

Eu bebo
E tento entender melhor os fatos
Tolices, coisas que disse.
Seus passos, tantos boatos.
Mais um gole.
Chet toca coisas sobre mim
Eu bebo.
O que poderia ter feito?
Pingos na janela molham o papel que escrevo
Eu bebo
E se caírem soluções do céu,
Em gotas de alegria?
Eu cedo.
Os dedos adormecem
A cabeça cansa
Chet, toque aquela mais animada!
Quero dançar essa lembrança.
Abro mais uma garrafa
Não há ninguém aqui
Será que também já fui embora?
Como saber o que se quer,
Quando já se tem tudo?
My funny valentine...
Seja quem você é, diz.
Eu bebo.
Eu fujo

De ti.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Maldita mania de não viver

O tempo ameniza tudo
Discordo!

O tempo é uma cortina de voal
Que levanta com qualquer brisa
Descortinando um coração cinza
E cada suspiro que faz doer.

O tempo varre tudo para debaixo do tapete
A pilha cresce 
E um dia aparece,
Deixando à mostra tudo que se deixou de dizer.

O tempo é um senhor com esclerose
Que a barba retém respeito e maturidade
Mas que no fundo, bem a verdade,
Só vive porque finge esquecer.

O tempo é o senhor da mentira
Escurece a verdade
Alimenta a vaidade
Abafando o que deveria viver.

O tempo, o tempo
Tic-tac indecente
Um pêndulo subserviente

Um tudo, um nada, um lento fenecer.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fogo


Transborda e inunda a rua
A tua língua cheia de promessas
Em cada passo, a tua ginga macia
Animal, carnal, desconcertante.

Vem! Vem em minha direção!
Sopra ao meu ouvido imaginações quentes.
Sorrio de olhos infinitos
Feito bicho, no calor, ao vento.

Como atmosfera densa no asfalto
A tua pele lasciva e fascinante
Algoz, pueril, tortura-me!
Entre lábios, orelhas, pescoço e dentes.

E eu, carrasco de mim,
A esmo dos teus abismos,
Viro o sangue das tuas veias
A perseguir tua carne faminta.


Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Febril


Tolo e em tolices te debruças,
Pintando corações onde há fuligem,
Crendo em arco-íris furta-cor
Descabelado e rendido.

Essa mania de acreditar
De tentar eternizar
Esse jeito infantil de suspirar
E crer, e perseguir, e exaltar

Porque tudo em ti é amor
Amor gratuito, de semear
Inconsequente, desnudo
Intransigente.

E essa inocência que te admiro
Que ames sabendo e sem querer saber
A ignorância pescadora de felicidade
Viver intenso do que vazio morrer.



Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Hiato


Cada estação uma novidade
E em teu pulmão um novo suspiro
Porque não procuras a eternidade
Mas toda a diversidade do finito

A tua boca cínica
Proferindo desejos hipócritas
E as inocências confortáveis
Dos homens que te amaram

Selvas incólumes nas tuas cavidades
Átrio e ventrículo intactos, inabitados.
As posses todas articuladas pela endorfina
Motivadas logo abaixo do umbigo e acima do ego

Se eu fosse juiz da tua insaciabilidade,
Cortaria as cordas dos teus amores fúteis,
Arrancaria tuas promessas sinceras,
As mentiras dilacerantes das tuas mãos fogosas.


Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Antes


Estou ouvindo a roleta girar e a bolinha correr
Os dados saltando na mesa
Todas as minhas fichas se esparramando
Sentindo as cartas revelarem-se por entre os dedos
O calor do canhão de luz apontado para o palco
O vento no meu corpo em queda livre.

Porque muito em mim tem medo do fim,
Numa mistura desconexa de adrenalina e inanição.
Que tudo não seja em vão.
Já que o amor sem o outro
É risco,
Arisco, indeciso e descrente.
É um inconsequente medroso.

Como se a cena parasse e só o coração continuasse
Esperando o número ser sorteado
A aposta ser ganha
As cartas serem azes
A estreia quebrar a perna
E o chão ser macio.

Porque, agora, não tem mais como voltar atrás,
Nem acelerar o resultado,
Não há controle, nem garantias.
É fechar os olhos e deixar acontecer.


Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O medo


Há uma coisa muito ruim, habitando o ser humano, que se chama medo. O medo atormenta, cega, ludibria, enfeitiça e leva o indivíduo por caminhos equivocados. Nada é mais açoitador que o medo, pois ele acorrenta sem correntes e dói sem chibatas. Mas isso tudo parece muito óbvio. O que não é tão fácil de perceber é quando somos nós os acuados por ele.

Quando um cavalo passa encilhado e você tem que pular para montar; quando um desconhecido estende a mão e você tem que confiar; quando um processo cirúrgico inovador pode salvar sua vida e você tem que acreditar; quando alguém erra, promete não errar mais e você deve crer; quando o amor surge de repente e você não pode titubear. Mas você não pula, não confia, não crê, não acredita e titubeia. Isso é o medo roubando a cena da oportunidade de ser feliz.

A vida é um relógio com corda sem fim. Não para, não dá tempo para medos e inseguranças. Ou você monta no cavalo ou ele passa encilhado e depois você torce para vir outro. O receio de ser otário, babaca, trouxa e de ser passado pra trás. Acaba te tornando um covarde diante da vida e só por isso você já merece todos os adjetivos da frase anterior. E afinal, cair é natural das vivências. Arriscar é a única forma de saber se é ou não é a melhor opção. No amor, nas oportunidades, no manter-se vivo e nas amizades não existem garantias. Se você cair, basta levantar. O tempo vai passar igual para você, e não sentir nada não pode ser melhor que sentir alegria e dor.

A verdade é que o medo não deixa viver e que a felicidade é própria dos destemidos.



Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Mate-a ou morra


Tente explicar o significado de saudade a um estrangeiro e você vai ficar horas dissertando. Não sei se eles não a sentem ou se nós é que somos exagerados, mas o caso é que a saudade é propulsora de devaneios, mola de loucuras, de palavras impensadas, declarações, e-mails, mensagens no celular e ligações depois da meia-noite.

O que tem nessa palavra tão brasileira, tão quente, tão forte? Que não significa só falta, nem ausência? Não adianta ligar, nem saber notícias. A saudade exige a presença, e mesmo assim, pode vir em forma de previsão. Eu sempre sei quando vou morrer de saudades de algo que estou vivendo. E dói. Dói na hora vivida. Dói depois. Dói para sempre. Transborda da sua existência, faz as lágrimas encharcarem a sua racionalidade. E você pensa que o tempo é essencial, mesmo que não adiante nada pensar.

E ela não deixa sua cabeça livre, atormenta e te faz feliz 100% do tempo. Quando você adormece de cansaço, ela faz check-in no seu sono e aparece em forma de sonho, lindo, real. Dá um gostinho bom e você acorda querendo ainda mais matá-la. Somos todos homicidas da saudade. Não existe quem não queira ver a saudade pelas costas e desferir um golpe fulminante, com um abraço, um beijo, a pele na pele. O principal é não ignorá-la, assumir e gritar ao mundo seus sentimentos ou é você quem vai desfalecer.

Nesse jogo de quem fica vivo, prefiro a minha vida e não sei se os estrangeiros não sentem isso assim tão forte, mas quando penso nela só consigo pensar em matá-la. Deve ser por isso que nos acham criminosos. Sinto muito, gente civilizada, mas desse crime eu aceito ser condenada.


Guilene Leonardi

*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!