Passei um tempo sem escrever, mas com muitos porquês sendo
analisados. Pensei em falar sobre problemáticas mil de relacionamentos e
busquei explicações para um zilhão de causas que geram o começo e o fim de algo.
Tentei achar razões nos sentimentos e sentimentos nas razões. Pedi opiniões de
amigos, verifiquei minhas experiências, percorri passados de gente que teve
sucesso ou insucesso a dois. Até que descobri que nunca há só dois.
Num jantar eles foram apresentados por amigos em comum.
Gostaram-se, aproximaram-se, investigaram-se. O eu dele era visto por ela com
uma carga gigante do que achavam os amigos em comum. O eu dela era lindo visto
dos olhos dele com lentes colocadas por seus pais na infância. O relacionamento
ideal, segundo ela e a melhor amiga, tinha que ter alianças e um buquê de juras.
Para ele e toda a torcida do Grêmio, a mulher perfeita era companheira para
todas às “paradas” e que não implicasse com os “programas de homem”, que não
fosse vulgar, mas que soubesse ser ousada, que fosse culta, mas que nunca se sobressaísse
a ele. Beleza é fundamental, achavam ela e a irmã. Mas era imprescindível que
ele fosse inteligente e rico, ela concordava com o pai. Enfim, perfeitos um
para o outro e para os outros.
O caso é que nenhuma das análises de problemáticas de
relacionamentos se sobrepôs, até então, ao fator “outros”. A começar pelo fato
de que nós, dentro de uma perspectiva de 2000 anos para cá, só nascemos porque “outros”
resolveram reorganizar a sociedade em famílias constituídas, obrigatória e
legalmente, por: um pai, uma mãe e filhos. Decepando e esquartejando qualquer outra
forma de convivência sentimental e organizacional. Há pouquíssimo tempo, alguns
míseros números de cidadãos gritaram por excluir os “outros” de suas escolhas,
nesse sentido, e libertaram-se. Porém, a sociedade em geral é formada pelos outros
e é tão intrínseco que eles atuam e se impõe inclusive aonde jamais poderia
haver parcialidade.
Não é que não tenhamos opinião e escolhas originalmente
nossas. É que frequentemente não colocamos nada em xeque frente ao que é nosso e
ao que é dos “outros”. É tão mais fácil andar com a multidão, que nosso consciente
não tenta olhar a frente e ver se é, realmente, aquele caminho que desejamos
seguir. Sem escolher por aquilo que desejam nossos íntimos e sendo levados pelo
GPS do pensamento coletivo, vamos caindo em buracos, furando nossos pneus,
amassando nossas latarias e enguiçando nossos motores em estradas da infelicidade.
Os “outros” só querem o nosso bem. Só querem que sejamos
felizes, que não tenhamos problemas, que não tenhamos tristezas. Daí, então, os
“outros” nos enquadram em seus modelos, e nós absorvemos essas bulas, regras, fôrmas
e encaixes, perfeitos para alguém que não somos nós. Quando dá errado e
demonstramos, os “outros” nos julgam, nos excluem, nos elevam ao alto grau da
incompetência ou do dó.
Aos olhos dos “outros”, é inconstante quem não tem um só amor
pra vida toda e conformista quem tem. Falta amor próprio quem corre atrás de
alguém que ama. É egoísta quem acha que pode ser feliz sozinho. Tem problemas
quem não deu certo com aquele alguém tão legal. Tem ainda mais problemas se
amar quem é tão imperfeito. Ora, mas o que é o ideal? O ideal mora sempre com
os outros, que juntos te transformam em alguém eternamente incompleto. Não leve
os outros para a cama com quem você ama, nem com quem você só vai ter um rolo,
pois eles fazem tanto barulho moral que você não vai conseguir aproveitar. Isso é para os relacionamentos, isso é para
tudo.
Fuja deles, deixe de ser um deles. Não faça isso um dia,
faça isso agora, faça sempre. Analise, duvide, questione seus sentimentos,
escolhas, passos, estradas. Não continue andando junto a uma multidão que
sempre parece feliz com as escolhas, mas que na verdade só está ali porque os
outros escolheram. Saia desse aglomerado de padrões alheios, de tristezas iminentes.
Não fique amarrado em ideias de sentimentos, de relações, de felicidade dos
diferentes querendo ser iguais. Não se anule por medo do que eles vão pensar. Porque
o que os outros querem é não ter que ouvir e ver o seu murmúrio de
inconformidade. Então, mil vezes que ele seja criado pelas suas escolhas,
baseado no seu íntimo, do que sofrer por fazer algo que você nem queria, nem
sentia, nem sequer entendia. Porque, ser feliz não é chegar ao fim da estrada
dos sonhos, mas caminhar nela porque escolhemos, rindo e chorando intensamente.
Como mandarem nossos coração e cérebro juntos, sem nenhum “outros”.
Guilene Leonardi
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