Lendo um texto* do Luiz Eduardo Soares, sobre a regeneração daqueles que já haviam transgredido às leis, me deparei com o seguinte pensamento “no Brasil, a Justiça não reconhece as penas perpétuas”. O autor fazia referência ao julgamento popular, ao pré-julgamento geral, à impossível recuperação dos transgressores. Os fatos: o sistema prisional, as penas, os métodos regenerativos, a atuação do Estado e da sociedade frente ao indivíduo culposo hoje e o que zerou suas dívidas amanhã. Será que esse segundo é reconhecido novamente como um alguém comum? Ou será que ele nunca poderá ser visto novamente como tal?
As dúvidas que permeiam o julgamento dos que já infringiram a lei e pagaram por isso, circundam a todas as esferas julgáveis pela moral e ética humanas. Alguém que já mentiu e redimiu-se do erro, poderia ser verdadeiro? Alguém que já traiu e arrependeu-se, poderia ser fiel? Alguém que já fez fofoca e assumiu, poderia passar a ser correto? Você perdoaria?
Tenho certeza que a maioria dos leitores vai dizer que sim. Mas os ditos ‘cachorro que come ovelha só matando’, ‘pau que nasce torto nunca se endireita’, ‘uma vez bandido, sempre bandido’, escancaram o que de fato a maioria sente e vive. Não há perdão. Você pode dizer que perdoa, mas lá no seu subconsciente tem a sua memória vestida de diabinho, falando: ‘Está atrasado? Traição’; ‘Respondeu e revirou os olhos para a direita, mentiu’; ‘não conta, ele vai espalhar’. E assim adiante. Pois, você não o considera um alguém que saiu da prisão, uma pessoa que pagou seus dividendos, ele sempre será um bandido à solta. A pena é perpétua para os olhos da sociedade. Anos e anos de companheirismo e até de doação ao extremo não apagarão a cena da descoberta da traição, da mentira, da falação. É assim.
Então, por que gastamos horas com discursos sobre retidão? Por que tentamos acertar os paus que nascem tortos? Por que colocamos os bandidos em cadeias? Se não tem perdão, então o certo era a cadeira elétrica. Se nada do que ele fizer o tornará digno de confiança novamente, então, mate-o, exclua-o da sua vida. Viver na desconfiança é o pior castigo e é injusto com qualquer um. Ninguém é senhor da verdade e da retidão para poder manter qualquer um, que seja, na ceara dos malfeitores. Acreditar na regeneração do ser humano é, principalmente, dar uma chance a si, quando a sua hora de deslize chegar. Ou você se condenaria à pena de morte?
*do livro Cabeça de Porco, escrito pelo Luis Eduardo Soares junto ao rapper MV Bill e ao criador da CUFA, Celso Athayde.
Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!
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