Rousseau* disse “É sobretudo na solidão que se sente a
vantagem de viver com alguém que saiba pensar.”, e ele não falava de qualquer
pensar. Mas vou começar esse texto do começo. O mundo é composto por pessoas
que desejam encontrar, somar e dividir tudo, constantemente, absolutamente. Pessoas
que nunca dizem não para não fazer sofrer e provocar afastamentos. Gente que
não magoa, nem se posiciona. Não desmente, não entra em conflito. Gente que age
prioritariamente pelo bem estar social, especificamente o seu social. Gente que
não suporta a ideia de viver só. E faz tudo pelo fator agregador, nem sabe se
gosta mesmo daqueles outros que lhe rodeiam, nem daquelas atividades, se aquela
é a vida que realmente desejava, mas faz tudo, tudo, tudo para não ficar só.
Abandonando drasticamente a sua condição de indivíduo.
Desde quando a sociedade desenvolveu essa fobia pela individualização,
eu não sei, mas vejo que, nos dias de hoje, quem perde com isso são os solitários
por natureza, que vamos chamar de SpN. Conviver consigo é uma tarefa
difícil. Não pense que o SpN é um
deprimido, um sofredor, um chato que se disfarça de SpN para não se sentir
excluído. O solitário por natureza é alguém que escolhe o momento social de
viver em grupo, que não faz coisas para agradar os outros, nem exige isso de
ninguém. Ele mora sozinho no seu eu, mas recebe visitas e as faz, quando deseja
e é desejado ao mesmo tempo. Porque ele não impõe sua presença, nem aceita que
a do outro seja imposta. Ou seja, é considerado um monstro individualista.
Há prazeres individuais intrínsecos, que não comprometem a
vida em sociedade. Existem coisas no ser só, o SpN, que não configuram solidão,
pela trágica conotação da palavra. O solitário por natureza apenas presa pelo
individual e isso significa respeitar incondicionalmente o individual do outro.
Por isso o SpN é um SpN. E ele tem seu espaço, de escolha de ser só,
completamente invadido quando alguém o avalia como triste. Isso é a banalização
do individual. Ser só não é ser triste. É gostar de si e saber o seu espaço no
mundo, principalmente as delimitações de espaços. É saber que somos indivíduos
pelo sentido literal da palavra, porque nossas escolhas afetam, na prática,
somente a cada um de nós. Aqueles que se deixam afetar por nossas escolhas, é porque
sofreram o efeito cascata da coletivização do indivíduo.
Acontece que a coletivização é o inverso do que parece. As
pessoas nunca perdem conexão com seus desejos individuais, mas em nome da
coletivização fazem os outros sofrerem as consequências do seu egoísmo, da
imposição da sua escolha. Numa vitimização constante pelas perdas de coisas que
nunca foram suas, como outros indivíduos, por exemplo. No limbo da
inconformidade pelas coisas da natureza que a coletivização não consegue mudar.
Tudo isso inconsciente. Tudo isso aparentemente normal. E quem é o egoísta,
agora?
Segue o solitário por natureza sendo escachado como
estranho, julgado como culpado, por um mal que ele está absolutamente à parte. Mal
sabem os que nunca ficaram um dia só, aproveitando-se, quão boa é a sua companhia,
a sua individualidade. E que isso não é solidão. Ou será que era sobre isso que
Rousseau falava, que a sua companhia é tão insatisfatoriamente pensante, que
precisa de alguém que pense e decida por você.
*Jean-Jacques Rousseau: filósofo, teórico político, escritor
e compositor autodidata suíço. Iluminista e precursor do romantismo.
Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!