Prática, uma mulher prática. Assim ela se definia. Estudara
com a ajuda dos pais, o último momento de dependência. Independente, sempre
fora assim. Trabalhando, pagando suas vontades, vivendo só e rodeada de outras
pessoas como ela. Buscava alguém, mas não acreditava em buquês de rosas
vermelhas, bilhetes com poesias na soleira da porta depois de um soar de
campainha. Não esperava mais bombons em caixas de coração, nem assistia mais
romances com esperanças de vivê-los.
É fácil viver assim. Não tem como se decepcionar com um
parceiro desatencioso, se você não esperar qualquer romantismo dele. Isso
contribui com um relacionamento de dois não apaixonados, que estão juntos por
acaso, ou por um encontro de práticos.
Os práticos são bem simples. Somos dois, queremos um, tenho
casa, você tem carro, gostamos de ler Nietzsche e no horário do seu MBA eu estudo
alemão. Pronto, fomos feitos um para o outro. Juntamos as escovas e esse é o
máximo da nossa demonstração de amor. Até porque, morar junto é descobrir
defeitos, que na prática fazem repensar se vale à pena continuar.
Amor na prática é isso. Não funciona por muito tempo e faz
pensar que o tempo que durou não valeu. Sabe qual amor vale o tempo? Aquele
carregado de impulsividade, paixão, passos impensados e incompatibilidades
práticas. Você tem uma cama de solteiro num pensionato de freiras e ele mora
com os pais. Ele tem uma moto e você tem medo de velocidade. Ele adora mostarda
e você prefere catchup. Atração natural,
que faz você querer armar um clima, impressionar. Usar roupa de baixo nova.
Fazer uma comida diferente. Velas. Buquês. Cheiros.
Amor impulsivo e paixão fazem você ser um romântico absolutamente
antiprático. Porque, no fundo, é o que nossa personagem do primeiro parágrafo
quer. É o que todo mundo quer. Poemas, jantares à luz de velas, letras de
música em mensagens no celular, declarações públicas nas redes sociais.
Ursinhos de pelúcia, bombons, rosas, balões, cinema, corações saindo dos
ouvidos, promessas de para sempre, falta de ar quando se afastam. Que nada dura
para sempre, você já é grandinho para saber. Mas também já deveria ter consciência
que ajoelhar e pedir em casamento é o que você quer de verdade e o que o outro deseja.
Por isso, deixemos de ser complexados pelas separações dos
pais e as brigas que presenciamos. As coisas andam muito rápidas, indolores e
insensíveis como nunca. Perdeu-se o gosto por sentir, por viver todas as
sensações da vida, tudo por medo de sofrer. Não tem mais como continuarmos sendo os falso-práticos que nos
tornamos, só por receio de uma separação dolorosa. Faça o que te faz ser mais
feliz eternamente, naquele momento. Faça o que sente vontade no íntimo. Seja romântico
rapaz. Queira isso menina. Só assim ela não vai mudar logo nos primeiros anos e
deixar de te desejar. Só assim ele vai continuar te conquistando dia após dia.
Abra a janela e deixe os raios quentes do romantismo entrarem, vai valer à pena,
vai valer o tempo que durar, eu garanto.
Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!