Ontem, relendo algumas poesias de Florbela Espanca*, refleti
sobre a vida, o que levamos como prioridades hoje e outrora. Fiquei vidrada no
sofrimento de Florbela, que escrevia belissimamente sobre o amor. Um amor
impossível e irremediável, mas sempre belo. Porque, a felicidade da autora era
amar, mesmo que incorrespondida, então, pensar que ela foi infeliz é ter uma
visão limitada.
Engraçado como as coisas nos tocam de formas diferentes em
momentos distintos da vida. Já havia lido seus poemas antes e, mesmo os
admirando, não havia percebido dessa forma. Porque, hoje consigo ver o quão
doente estão os seres humanos desse mundo. Houve um tempo em que amar era uma
prioridade. Sim, amar! Estar com as pessoas pelo sentimento. Escrevia-se
poemas, mandava-se cartas, fazia-se serenatas, passava-se em frente à casa ou
trabalho só para o encontrar ao acaso. Viajava-se o mundo atrás de um amor.
Sofria-se por amor, um amor injustificável, gratuito, juvenil, casto,
aromático, sensitivo, doador, inocente e tórrido.
Hoje, se cria um amor porque ele pode pagar a volta ao
mundo. Hoje, o ama porque ele tem o apartamento e ela o carro, mas vai herdar
uma casa do pai. Hoje, estamos juntos, porque eu fiz administração e ele se
formou em medicina. Porque somos sarados da mesma academia. Desculpas
práticas e irrisórias que transformam o amor na maior banalidade a venda nas
prateleiras. Foi-se o tempo que um amor e um bangalô faziam a cabeça da
mulherada. Hoje, se o amor da sua vida andar de bicicleta vai passar despercebido
por você. É assim, não seja hipócrita. Porque, você não quer ir ao motel a pé,
nem andar de ônibus de mãos dadas. A verdade é que o amor romântico morreu, ou
o pior, o amor morreu.
Porque, Florbela falava sem cessar sobre o amor, sobre o
amar, sobre a dor. Mas não o queria expurgar. Sentia-o com prazer, mesmo que
anônima ao mundo. Pois, o conceito de aproveitar era amar e não ter. Era
sentir, sem garantias de reciprocidade. Ela não perdia o seu tempo amando, pois amar nunca era perda de tempo.
Somos agentes, mas também somos vítimas de um mundo capital,
que nos cobra sucesso o tempo inteiro e nos prova que o tempo é dinheiro. Que não importa o quão feliz você for,
se não tiver a casa dos sonhos, o carro dos sonhos, os estudos dos sonhos, as
roupas dos sonhos, o emprego dos sonhos e as atividades dos sonhos, você é um
fracassado. Então, o parceiro deve convergir para esses mesmos sonhos, caso
contrário, você vai demorar mais para alcançar a meta imaginária de sucesso.
Buscá-lo é mais prático que buscar o amor, pois por ele você não vai sofrer e
ainda caminhará rumo ao triunfo dentro do prazo.
Olhe em volta. Pense nas suas escolhas. Veja o que fez e
quantas vezes teve que justificar tudo para si mesmo. Você verá que suas pisadas
são matemáticas, que seus vislumbres são cifrados, que sua labuta é uma infeliz
e calculada prioridade, que seu amor tem ou teve que ser uma programada
congruência de interesses. Daí, então, você saberá que, no fundo, nunca soube
amar só porque repudia o sofrer.
*Florbela Espanca (1894-1930), uma das maiores poetisas
portuguesas de todos os tempos.
Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!