Vou começar esse texto fazendo
uma confissão, sempre achei a coisa mais ridícula do mundo alguém sofrer por
paixão. Não estou falando de levar um fora, chorar um dia e depois seguir a
diante. Falo de sofrer anos e anos por alguém. Mesmo nos dois casos, sempre
achei o cúmulo da falta de percepção dos problemas do mundo. Tanta gente
passando fome, o desmatamento, a Rocinha, o câncer, a Síria explodindo, como
pode essa pessoa estar sofrendo assim por outra que não merece o seu amor? Eu
nunca entendi isso. Até então.
Os escritores nos mostram que
desde sempre o amor fez gente barbada chorar, bêbada nas tabernas, botequins e pubs
pelo mundo. Se a paixão mudou os rumos da história tantas vezes, porque o
desamor não poderia? Você talvez não imagine, mas quantos reis perderam
reinados porque estavam acometidos pela dor imensa que uma dama lhes causou? E
quantos poemas, que hoje nos levam às estrelas, devem ter sido escritos com
lágrimas de desilusão? E as letras de músicas com suas melodias tristes, todas
escritas por gente que sofreu por outra gente. Páginas e páginas dos romances,
sempre com um coração partido, ou vários. Mas o que é esse sentimento tão
cruel?
Sofrer absurdamente, de
desencontrar-se, de desgostar do resto, de tentar voltar à superfície e não
conseguir. De dormir para esquecer e ser relembrado nos sonhos. De passar anos
longe, amenizando as lembranças, e mesmo assim lembrar todos os dias. De morrer
um pouco a cada dia. De sorrir amarelo em festejos azuis. De receber “oi, tudo
bem?” e dizer “sim”, querendo responder a verdade, mas não ter mais fôlego para
falar. E ter sempre a aura de quem vela um corpo ausente, num caixão invisível,
com flores de plástico. Isso tudo por não poder viver aquilo que planejara.
Mas por que o ser humano se deixa
acometer pelo sentimento quando ele não é correspondido ou realizável? Há dois
motivos possíveis. Um é que aconteça alguma transformação parapsicológica
dentro da cabeça do indivíduo, que desconecta todas as ligações neurais e liga
apenas uma a de amar e não ser amado. O outro é que somos tão primitivos nesse
assunto que não admitimos perder. Lidamos com o amor como lutamos na guerra por
um território e se o território não quiser ser seu, mais ainda você vai querê-lo.
Isso não tem fim. Até que você ocupe a bendita terra e veja que ela nada mais é
que um deserto absolutamente inabitável. Logo, “quem eu quero não me quer, quem
me quer eu não quero” é o reflexo absoluto do egocentrismo humano, do mais puro
narcisismo em pele de sentimentalismo. Pois, o amor só se permite ser bom para
todos, quando faz alguém sofrer é porque tem algo errado.
E sempre se pensa que poderia ter
dito algo que não disse. Ter enviado flores. Ter deixado de implicar com a
toalha molhada em cima da cama. Ter ouvido mais os problemas sem dar opinião. Ter
lavado a louça, quando ele cozinhava. Ter sido menos rígido. Ter relaxado mais.
Ter respeitado mais o espaço do outro. Ter sido mais parceiro. E se, e se, e
se.
A verdade é que esses “e se” não fazem
mais diferença. Se o problema é falar, vá lá e fale. Mas o desprezo vai lhe fazer
sofrer tanto quanto sofre o mundo com os dissabores das guerras, das doenças,
da ignorância. Eu não respeitava muito quem sofria por amor, mas agora sei, o
ego cega o seu coração e emudece a sua alma. Ego ferido é pior que bomba nuclear.
Arrasa absurdamente a vida com uma dor devastadora.
Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!
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