domingo, 29 de julho de 2012

A paixão e o ego


Vou começar esse texto fazendo uma confissão, sempre achei a coisa mais ridícula do mundo alguém sofrer por paixão. Não estou falando de levar um fora, chorar um dia e depois seguir a diante. Falo de sofrer anos e anos por alguém. Mesmo nos dois casos, sempre achei o cúmulo da falta de percepção dos problemas do mundo. Tanta gente passando fome, o desmatamento, a Rocinha, o câncer, a Síria explodindo, como pode essa pessoa estar sofrendo assim por outra que não merece o seu amor? Eu nunca entendi isso. Até então.

Os escritores nos mostram que desde sempre o amor fez gente barbada chorar, bêbada nas tabernas, botequins e pubs pelo mundo. Se a paixão mudou os rumos da história tantas vezes, porque o desamor não poderia? Você talvez não imagine, mas quantos reis perderam reinados porque estavam acometidos pela dor imensa que uma dama lhes causou? E quantos poemas, que hoje nos levam às estrelas, devem ter sido escritos com lágrimas de desilusão? E as letras de músicas com suas melodias tristes, todas escritas por gente que sofreu por outra gente. Páginas e páginas dos romances, sempre com um coração partido, ou vários. Mas o que é esse sentimento tão cruel?

Sofrer absurdamente, de desencontrar-se, de desgostar do resto, de tentar voltar à superfície e não conseguir. De dormir para esquecer e ser relembrado nos sonhos. De passar anos longe, amenizando as lembranças, e mesmo assim lembrar todos os dias. De morrer um pouco a cada dia. De sorrir amarelo em festejos azuis. De receber “oi, tudo bem?” e dizer “sim”, querendo responder a verdade, mas não ter mais fôlego para falar. E ter sempre a aura de quem vela um corpo ausente, num caixão invisível, com flores de plástico. Isso tudo por não poder viver aquilo que planejara.

Mas por que o ser humano se deixa acometer pelo sentimento quando ele não é correspondido ou realizável? Há dois motivos possíveis. Um é que aconteça alguma transformação parapsicológica dentro da cabeça do indivíduo, que desconecta todas as ligações neurais e liga apenas uma a de amar e não ser amado. O outro é que somos tão primitivos nesse assunto que não admitimos perder. Lidamos com o amor como lutamos na guerra por um território e se o território não quiser ser seu, mais ainda você vai querê-lo. Isso não tem fim. Até que você ocupe a bendita terra e veja que ela nada mais é que um deserto absolutamente inabitável. Logo, “quem eu quero não me quer, quem me quer eu não quero” é o reflexo absoluto do egocentrismo humano, do mais puro narcisismo em pele de sentimentalismo. Pois, o amor só se permite ser bom para todos, quando faz alguém sofrer é porque tem algo errado.

E sempre se pensa que poderia ter dito algo que não disse. Ter enviado flores. Ter deixado de implicar com a toalha molhada em cima da cama. Ter ouvido mais os problemas sem dar opinião. Ter lavado a louça, quando ele cozinhava. Ter sido menos rígido. Ter relaxado mais. Ter respeitado mais o espaço do outro. Ter sido mais parceiro. E se, e se, e se.

A verdade é que esses “e se” não fazem mais diferença. Se o problema é falar, vá lá e fale. Mas o desprezo vai lhe fazer sofrer tanto quanto sofre o mundo com os dissabores das guerras, das doenças, da ignorância. Eu não respeitava muito quem sofria por amor, mas agora sei, o ego cega o seu coração e emudece a sua alma. Ego ferido é pior que bomba nuclear. Arrasa absurdamente a vida com uma dor devastadora.

Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!

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