quinta-feira, 24 de maio de 2012

Amor com justificativas


Ontem, relendo algumas poesias de Florbela Espanca*, refleti sobre a vida, o que levamos como prioridades hoje e outrora. Fiquei vidrada no sofrimento de Florbela, que escrevia belissimamente sobre o amor. Um amor impossível e irremediável, mas sempre belo. Porque, a felicidade da autora era amar, mesmo que incorrespondida, então, pensar que ela foi infeliz é ter uma visão limitada.

Engraçado como as coisas nos tocam de formas diferentes em momentos distintos da vida. Já havia lido seus poemas antes e, mesmo os admirando, não havia percebido dessa forma. Porque, hoje consigo ver o quão doente estão os seres humanos desse mundo. Houve um tempo em que amar era uma prioridade. Sim, amar! Estar com as pessoas pelo sentimento. Escrevia-se poemas, mandava-se cartas, fazia-se serenatas, passava-se em frente à casa ou trabalho só para o encontrar ao acaso. Viajava-se o mundo atrás de um amor. Sofria-se por amor, um amor injustificável, gratuito, juvenil, casto, aromático, sensitivo, doador, inocente e tórrido.

Hoje, se cria um amor porque ele pode pagar a volta ao mundo. Hoje, o ama porque ele tem o apartamento e ela o carro, mas vai herdar uma casa do pai. Hoje, estamos juntos, porque eu fiz administração e ele se formou em medicina. Porque somos sarados da mesma academia. Desculpas práticas e irrisórias que transformam o amor na maior banalidade a venda nas prateleiras. Foi-se o tempo que um amor e um bangalô faziam a cabeça da mulherada. Hoje, se o amor da sua vida andar de bicicleta vai passar despercebido por você. É assim, não seja hipócrita. Porque, você não quer ir ao motel a pé, nem andar de ônibus de mãos dadas. A verdade é que o amor romântico morreu, ou o pior, o amor morreu.

Porque, Florbela falava sem cessar sobre o amor, sobre o amar, sobre a dor. Mas não o queria expurgar. Sentia-o com prazer, mesmo que anônima ao mundo. Pois, o conceito de aproveitar era amar e não ter. Era sentir, sem garantias de reciprocidade. Ela não perdia o seu tempo amando, pois amar nunca era perda de tempo.

Somos agentes, mas também somos vítimas de um mundo capital, que nos cobra sucesso o tempo inteiro e nos prova que o tempo é dinheiro. Que não importa o quão feliz você for, se não tiver a casa dos sonhos, o carro dos sonhos, os estudos dos sonhos, as roupas dos sonhos, o emprego dos sonhos e as atividades dos sonhos, você é um fracassado. Então, o parceiro deve convergir para esses mesmos sonhos, caso contrário, você vai demorar mais para alcançar a meta imaginária de sucesso. Buscá-lo é mais prático que buscar o amor, pois por ele você não vai sofrer e ainda caminhará rumo ao triunfo dentro do prazo.

Olhe em volta. Pense nas suas escolhas. Veja o que fez e quantas vezes teve que justificar tudo para si mesmo. Você verá que suas pisadas são matemáticas, que seus vislumbres são cifrados, que sua labuta é uma infeliz e calculada prioridade, que seu amor tem ou teve que ser uma programada congruência de interesses. Daí, então, você saberá que, no fundo, nunca soube amar só porque repudia o sofrer.


*Florbela Espanca (1894-1930), uma das maiores poetisas portuguesas de todos os tempos.


Guilene Leonardi
*Se gostou, compartilhe, reproduza. Só não esqueça que a produção intelectual é de propriedade privada, então, credite a autoria dos textos. Obrigada!



4 comentários:

  1. Muito bom o texto! Me fez pensar, não exatamente sobre o amor, mas na vida em geral. As coisas que nós fazemos as vezes pra alcançar o 'sucesso' e que talvez essas coisas não sejam as melhores para a nossa felicidade.
    Sou adolescente e graças a Deus eu nunca escolhi alguém por 'sucesso'. Mas esse texto foi um bom tapa na cara pra perceber as pequenas coisas que nós fazemos, as coisas que colocamos em primeiro lugar e não nos fazem felizes. Isso tudo deixa a vida menos prazerosa e por várias vezes terminamos o dia com a frase 'pronto. fiz tudo'. Como se a vida fosse uma tarefa. O texto também foi bom, pelo fato de me fazer olhar pra esse lado interesseiro que nós humanos temos, espero nunca ser assim.

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  2. Esta sendo bem dificil, parei nesse resolvi escrever adoro Florbela, mas sempre a via muito depressiva, hoje vi de um outro angulo, vc parece ter a capacidade de nos seus textos passar os dois lados de uma mesma moeda. Parabens..Salete (sogra)

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  3. O grande porém é, quando se ama algo ou alguém, sente-se como se tivéssemos aquilo ou a outra pessoa, como propriedade, mas o sentimento de perda não é pela perda em si, mas pela falta que sentiremos, então, egoísmo.

    Florbela Espanca, amava, apenas, incondicionalmente. Se havia retorno, aceitava, se não, simplesmente amava e não tornava ou parecia banal este sentimento, mas à nós, se não houver retorno, reconhecimento, jogamos fora, tudo e todos, pois nossa dor é e sempre será maior que a de qualquer outro.

    Ocidentais, países novos, culturas novas, voláteis, prolixos, infames, doentios e tristes.

    Amar é antes de mais nada o sinal de que te respeita, que te reconheces como ser humano, com teus defeitos, qualidades, etc, então, amar o próximo simplesmente é escolher à quem e não a necessidade de "ter" aquela pessoa, pois "ter", jamais se terá, já que ela também tem escolhas.

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